Crónicas Algarvias

 

Manuel da Fonseca escreveu crónicas no jornal “A Capital” em 1968 tendo como título “O desafio do Algarve“. As crónicas basearam-se numa aventura de Vila Real de Santo António a Sagres, as conversas e recordações são descritas nas crónicas publicadas no jornal, e posteriormente na obra “Crónicas Algarvias“. As crónicas presentes no jornal não correspondem ao que o autor realmente escreveu, algumas foram modificadas pela Censura.

O objectivo desta viagem foi ver o que as pessoas faziam, como viviam e não a paisagem algarvia.

Vila Real de Santo António, segundo um idoso

Um sujeito idoso e bem vestido, que ia na mesma direcção, quando passo por ele, cumprimenta-me. Ao olhar-me melhor conclui que não sou quem supõe, sequer me conhece. Desculpa-se delicadamente, delicadeza a que eu correspondo. Como seguimos lado a lado, e o diálogo prossegue, aproveito a ocasião.

– Quer saber como é Vila Real? – admira-se o senhor idoso. – Foi isso que perguntou? Explico-lhe o motivo.

– Vai ficar uns dias? – indaga ele. – Se procura hotel, o único que havia fechou. E faz falta. Veja o senhor por si próprio: vem a Vila Real de Santo António, que é a terra mais bonita do Sotavento, quer um hotel e não tem. Informo-o que tinha arranjado pensão.

– Seja como for – insiste o sujeito idoso. – Uma terra destas e sem um hotel!…

(…)

– Como lhe dizia, Vila Real de Santo António é muito importante. Note esse movimento de camionetas da carreira. Gente de todas as classes sociais, como vê. Operários, que são a maioria, estudantes da Escola Industrial, camponeses, etc. E espanhóis, sempre muitos espanhóis. Dão uma grande alma ao comércio.

(…)

– Já viu a Praça Marquês de Pombal?

– Hoje, já vi três vezes, de manhã.

– Três vezes? – admira-se o senhor bem vestido e idoso. – E todas de manhã?

– Todas – afirmo-lhe eu. – Na primeira e na terceira falaram-me muito do marquês.

– Grande homem – diz o sujeito idoso, ainda desconfiado. – Mas adiante. Se lá foi, venha ver a Rua Teófilo Braga. Está vedada ao trânsito. Tudo cafés, esplanadas, lojas chiques. É a rua mais bonita do Sotavento. Atravesso de novo a Praça do Marquês de Pombal e entro na Rua Teófilo Braga. Sítio aprazível e alegre, cheio de mulheres bonitas e elegantes, queimadas do sol, muitas de camisas soltas na cintura, e de calções curtos, sapatos coloridos, rasos. Sob os toldos, esplanadas, quase sem lugares, estendem-se, todas do mesmo lado, ao comprido da rua. Acabamos por encontrar uma mesa.

Excerto da Obra “Crónicas Algarvias”

Anúncios
Comments
One Response to “Crónicas Algarvias”
  1. mariozjota diz:

    Muito boa a matéria, Parabens 😀

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: